São Paulo – dia 56
Corpo comprimido, levado para o
interior do vagão, estacionado entre uma porta automática e outro corpo.
Coração acelerado. Na linha vermelha do metrô, como na vida, não é possível
voltar. A vida é fluxo e batismos de fogo. Momentos antes havia uma coreografia,
e ela continua lá todos os dias. Estação Brás: uma baldeação, um olhar, uma dança,
e muita beleza no caos. Corpos múltiplos de diferentes cores e tamanhos e
formas, e caminhantes, e correntes, e ligeiros, cada um em cada direção a
partir de um centro vazio. Não-lugar, multidão, solidão, deriva, um sorriso no
meio de tudo isso...e uma informação...
- “Por favor, uma informação...muito
grata...”
- “Imagina...”
“Imagina” é o “de nada” do
paulista...é um dizer gentil, pois, sim, há gentileza em SP. Tem gente que vê,
ouve, sente e age no meio tons cinzas e pretos dos prédios e dos sobretudos. Sotaque
do “norte” é portal e espelho para um particular Anthropological blues, como
diria DaMatta. Etnologia involuntária que a música da palavra dita acorda em
alguém em sua tristeza e saudade e devolve ao que é meu: “...meus pais são de
Pernambuco...” , “...no nordeste ninguém passa fome, sempre alguém dá comida
quando alguém precisa”, “Quero visitar minha avó em Agrestina”. O Norte é
metáfora que abrange o Nordeste, o paraíso perdido de tantos que vivem, dia
após dia para trabalhar, para trabalhar, dia após dia, para trabalhar (quando têm
trabalho)... e sentem frio.
O frio....
“O frio matou três pessoas em menos de
24 horas”, diz o noticiário. Não, não foi o frio que matou três pessoas. Aqui, do
auge dos 13 graus deste momento, estou longe de morrer. O que mata quem morre
de frio em SP, é o mesmo que mata em qualquer lugar do mundo. Negação da visão
de si como parte da doença que não enxerga o outro. Gestores são espelhos. A
cidade mais bonita dos meus caminhos, com direito a paisagem de cinema
esquecido pela população local, escolheu o defensor da tortura para administrar
seu país.
Seguir sem querer enxergar é ser gado...gado
na coreografia de qualquer linha do complexo-terrível-maravilhoso no metrô de
São Paulo, gado no viaduto, gado que corre à esquerda da escada rolante, gado
que estaciona à direita da escada rolante, gado na praia da elite paulista em
frente ao mar e de costas para o rio, e vice versa. Gado que pasta e rumina e faz
merda (com direito a todos os trocadilhos), e faz, e faz, e fim.
São Paulo é limite que toca as Minas e
o Rio. Serra da Cantareira, Mairiporã, Paraty, Itamambuca... “Não conhecemos”,
disseram-me parentes do ABC paulista que vivem há quarenta, cinquenta anos na
terra da garoa...
“...oh mundo tão desigual, tudo é tão desigual...”
Eu ali na intersecção do tempo e do espaço.
Detentora na carne de vidas que vieram antes. Corpos aquém e além entre
expansões e recolhimentos. Eu sinto tudo e sei o que tudo isso significa. Estou
presente.
Antes de ontem chorei no trem. Ouvi o áudio da
minha irmã mais velha falando de sua morte e de seu renascimento. Quando de sua
morte, morri no espaço-tempo de sua descrição de tudo. Há 15 dias eu poderia
estar neste mundo sem uma das pessoas que mais amo na vida....tempo ligeiro,
tempo que passa, tempo que dobra e segue...“Sheila, volta! Respira!” disse a
minha voz-interna-portal-de-imunidade-e-sobrevivência...
- “Moça, já passou a estação Prefeito
Celso Daniel?” (o nome de uma estação e tantos pensamentos em segundos...corpo,
política...)
- “Não. Ainda faltam algumas estações”
- “Muito grata!”
- “Imagina!”