sábado, 25 de abril de 2020

Anthropological blues ou crônica do dia 56


São Paulo – dia 56

Corpo comprimido, levado para o interior do vagão, estacionado entre uma porta automática e outro corpo. Coração acelerado. Na linha vermelha do metrô, como na vida, não é possível voltar. A vida é fluxo e batismos de fogo. Momentos antes havia uma coreografia, e ela continua lá todos os dias. Estação Brás: uma baldeação, um olhar, uma dança, e muita beleza no caos. Corpos múltiplos de diferentes cores e tamanhos e formas, e caminhantes, e correntes, e ligeiros, cada um em cada direção a partir de um centro vazio. Não-lugar, multidão, solidão, deriva, um sorriso no meio de tudo isso...e uma informação...
- “Por favor, uma informação...muito grata...”
- “Imagina...”
“Imagina” é o “de nada” do paulista...é um dizer gentil, pois, sim, há gentileza em SP. Tem gente que vê, ouve, sente e age no meio tons cinzas e pretos dos prédios e dos sobretudos. Sotaque do “norte” é portal e espelho para um particular Anthropological blues, como diria DaMatta. Etnologia involuntária que a música da palavra dita acorda em alguém em sua tristeza e saudade e devolve ao que é meu: “...meus pais são de Pernambuco...” , “...no nordeste ninguém passa fome, sempre alguém dá comida quando alguém precisa”, “Quero visitar minha avó em Agrestina”. O Norte é metáfora que abrange o Nordeste, o paraíso perdido de tantos que vivem, dia após dia para trabalhar, para trabalhar, dia após dia, para trabalhar (quando têm trabalho)... e sentem frio.
O frio....
“O frio matou três pessoas em menos de 24 horas”, diz o noticiário. Não, não foi o frio que matou três pessoas. Aqui, do auge dos 13 graus deste momento, estou longe de morrer. O que mata quem morre de frio em SP, é o mesmo que mata em qualquer lugar do mundo. Negação da visão de si como parte da doença que não enxerga o outro. Gestores são espelhos. A cidade mais bonita dos meus caminhos, com direito a paisagem de cinema esquecido pela população local, escolheu o defensor da tortura para administrar seu país.
Seguir sem querer enxergar é ser gado...gado na coreografia de qualquer linha do complexo-terrível-maravilhoso no metrô de São Paulo, gado no viaduto, gado que corre à esquerda da escada rolante, gado que estaciona à direita da escada rolante, gado na praia da elite paulista em frente ao mar e de costas para o rio, e vice versa. Gado que pasta e rumina e faz merda (com direito a todos os trocadilhos), e faz, e faz, e fim.
São Paulo é limite que toca as Minas e o Rio. Serra da Cantareira, Mairiporã, Paraty, Itamambuca... “Não conhecemos”, disseram-me parentes do ABC paulista que vivem há quarenta, cinquenta anos na terra da garoa...
 “...oh mundo tão desigual, tudo é tão desigual...”
 Eu ali na intersecção do tempo e do espaço. Detentora na carne de vidas que vieram antes. Corpos aquém e além entre expansões e recolhimentos. Eu sinto tudo e sei o que tudo isso significa. Estou presente.
 Antes de ontem chorei no trem. Ouvi o áudio da minha irmã mais velha falando de sua morte e de seu renascimento. Quando de sua morte, morri no espaço-tempo de sua descrição de tudo. Há 15 dias eu poderia estar neste mundo sem uma das pessoas que mais amo na vida....tempo ligeiro, tempo que passa, tempo que dobra e segue...“Sheila, volta! Respira!” disse a minha voz-interna-portal-de-imunidade-e-sobrevivência...
- “Moça, já passou a estação Prefeito Celso Daniel?” (o nome de uma estação e tantos pensamentos em segundos...corpo, política...)
- “Não. Ainda faltam algumas estações”
- “Muito grata!”
- “Imagina!”

 


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