Frida, assim como boa parte das mulheres pensantes (Virgínia Woolf, Simone de Beauvoir, Carolina Maria de Jesus, entre tantas outras maravilhosas), pintou-se a si mesma, elaborou a história a partir de suas próprias experiências pessoais (que são também políticas) e seguiu sendo inspiração.
Pintar-se, escrever-se, desenhar-se, cantar-se, enfim, dizer-se de tantas formas foi/tem sido o modo encontrado para fazer das vivências e experiências próprias das mulheres (vejam bem, vivências e expriências, não estou recorrendo à essência para discorrer sobre experiências femininas), lugares não só compreensíveis (porque sempre o foram), mas mais que isso, valorizados em suas particularidades (porque estas têm sido relegadas à condição de "coisas de mulher" e, portanto, diminuídas em relação às vivências masculinas e em ambas, claro, estou falando a partir de uma perspectiva hegemônica).
Não fosse, por exemplo, Carolina Maria (mulher negra, mãe solteira de três filhos, catadora de lixo) a contar sua própria história, quem o faria, ou faria com a sua verdade? Carolina escrevia para esquecer a fome - a dela e dos filhos. Escrevia para despistar o nervosismo que leva à loucura e ao suicídio. Disse-nos ela em seu livro quarto de despejo:
“Amanheceu garoando. O sol elevando –se. Mas o seu calor não dissipa o frio. Eu fico pensando: tem época que é sol que predomina. Tem época que é a chuva. Tem época que é o vento. Agora é a vez do frio. E entre eles não deve haver rivalidades. Cada um por sua vez. Pág. 38
“...De manhã estou sempre nervosa. Com medo de não arranjar dinheiro para comprar o que comer. Mas hoje é segunda-feira e tem muito papel na rua. (...) o senhor Manuel apareceu dizendo-me que quer casar-se comigo. Mas eu não quero porque já estou na maturidade. E depois, um homem não há de gostar de uma mulher que não pode passar sem ler. E que levanta para escrever. E que deita com lápis e papel debaixo do travesseiro. Por isso é que eu prefiro viver só para meu ideal (...)” pág 50
“...Quando eu era menina o meu sonho era ser homem para defender o Brasil porque eu lia a História do Brasil e ficava sabendo que existia guerra. Só lia os nomes masculinos como defensor da pátria. Então eu dizia para minha mãe: - Porque a senhora não faz eu virar homem? Ela dizia: - Se você passar por debaixo do arco-íris você vira homem. Quando o arco-íris surgia eu ia correndo na sua direção. Mas o arco-íris estava sempre se distanciando(...)” pág. 55
“(...) já faz dias que eu ando atrás dele. Armei a ratoeira. Mas quem matou ele foi uma gata preta. Ela é do senhor Antônio Sapateiro. O gato é um sábio. Não tem amor profundo e não deixa ninguém escravizá-lo. E quando vai embora não retorna provando que tem opinião. Se faço esta narração do gato é porque fiquei contente dela ter matado o rato que estava estragando os meus livros” p. 148
“...A vida é igual um livro. Só depois de ter lido é que sabemos o que encerra. E nós quando estamos no fim da vida é que sabemos como a nossa vida decorreu. A minha até aqui tem sido preta. Preta é a minha pele. Preto é o lugar onde eu moro”. p. 168
No livro de Virgínia Woolf, Um teto todo seu, ela discorre sobre a condição das mulheres de sua época e, como por autorretrato, diz-nos:
...“a mulher precisa ter dinheiro e um teto todo dela se pretende mesmo escrever ficção; e isso, como vocês irão ver, deixa sem solução o grande problema da verdadeira natureza da mulher e da verdadeira natureza da ficção. Esquivei-me ao dever de chegar a uma conclusão sobre essas duas questões — a mulher e a ficção, no que me diz respeito, permanecem como problemas não solucionados. Mas, para compensar um pouco, vou fazer o possível para mostrar-lhes como cheguei a esse conceito do teto e do dinheiro.Vou expor diante de todos, tão livre e integralmente quanto puder, o encadeamento de ideias que me levou a pensar nisso. Talvez, se eu revelar as concepções e preconceitos que estão por trás dessa afirmação, vocês descubram que eles têm alguma relação com as mulheres e outro tanto com a ficção. De qualquer modo, quando um tema é altamente controvertido — e assim é qualquer questão sobre o sexo —, não se pode pretender dizer a verdade. Pode-se apenas mostrar como se chegou a qualquer opinião que de fato se tenha" (...) Além disso, é igualmente inútil perguntar o que teria acontecido se a sra. Seton e sua mãe, e a mãe de sua mãe, tivessem acumulado uma grande riqueza e a tivessem depositado aos cuidados das fundações da faculdade e da biblioteca, porque, em primeiro lugar, lhes era impossível ganhar dinheiro e, em segundo, se tivesse sido possível, a lei lhes negava o direito de possuírem qualquer dinheiro ganho. Só nos últimos quarenta e oito anos é que a sra. Seton pôde ter algum centavo de seu. Em todos os séculos antes disso, o dinheiro teria sido propriedade do marido — um pensamento que talvez tenha contribuído para manter a sra. Seton e sua mãe fora da Bolsa de Valores. Cada centavo que eu ganhe, teriam dito elas, será retirado de mim e empregado de acordo com o critério de meu marido. . . talvez para custear uma bolsa de estudos ou doar fundos para uma fellowship em Balliol ou Kings, de modo que ganhar dinheiro, mesmo que eu pudesse ganhá-lo, não é um assunto de grande interesse para mim. É melhor deixar isso para o meu marido.
(...)
Comecei com Frida, emendei com Beauvoir, Carolina e continuo, para finalizar, com as imagens de três artistas pernambucanas que têm me encantado pela liberadade, criatividade e sororidade (o amor, cuidado, afeto entre mulheres, que pode ser entre amigas, irmãs, namoradas, etc.). Seguem, para deleite, cada uma ao seu estilo. as imagens de Simone Mendes, Dani Pessoa e Beatriz Melo:
Simone Mendes
Beatriz Melo
Beatriz Melo
Dani Pessoa
Dani Pessoa








Nenhum comentário:
Postar um comentário